INFERNO DIGITAL

A demanda social por segurança pública é legítima e reflete a busca pelo bem comum. O Estado tem a obrigação constitucional de provê-la, sobretudo nos centros urbanos, onde a criminalidade é mais severa. Por isso, os cidadãos cobram retribuição pelos impostos pagos — afinal, se o tributo não garante a proteção social, transforma-se em mera penalidade arbitrária.

O problema se agrava quando, sob o pretexto da segurança, promulgam-se leis que sufocam as liberdades individuais. Muitas vezes, a repressão estatal a pequenas condutas causa mais danos ao tecido social do que os próprios atos reprimidos. Ao adotar a postura de vigilante perpétuo e patrulheiro ideológico, o Estado restringe a liberdade de expressão e de pensamento — atributos inerentes à natureza humana. O indivíduo é crítico por definição, seja ao escolher um produto, seja ao avaliar o ensino dos filhos ou a segurança de um procedimento médico. Exigir conformidade e rotular o senso crítico como preconceito viola o direito de opinião e impede até mesmo o valor formativo da crítica construtiva.

Ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas que o semelhante, ou mesmo desferir um sorriso amarelo ao que não lhe agrada, mas as leis de nosso país reclamam esse tipo de capricho.  Ser generoso com uma multidão, sem quaisquer distinções, não é natural nem humano.  É algo inerentemente impessoal, e ser impessoal com todos é negar-se a si mesmo.  É ser político e não amigo, pois é bastante verdade existirem sim críticas construtivas, que futuramente impactarão positivamente na mente do criticado, que se recordará com gratidão daquele amigo que o criticou.

Mas o Estado que está se erguendo sob os nossos narizes quer ser homenageado como um deus infalível, mais que um vigilante perpétuo e onipresente, mas uma entidade macabra semelhante ao Leviatã, que determina o que deve ser livre ou não e tampouco se interessa pela virtude de seus súditos. O uso de recursos como a vigilância por câmeras, antes tido como um mal necessário, passa a ser um mal desnecessário ao catalogar e expor cidadãos comuns.  Ironicamente, enquanto a vigilância estatal se mostra ineficaz contra criminosos, torna-se implacável contra o cidadão cumpridor de seus deveres, cuja privacidade é sacrificada em nome de conveniências burocráticas. 

A multidão não tem face, mas as câmeras captam cada uma das individualidades ali presentes e as cataloga numa espécie de relação de obediência: as mais e as menos semelhantes aos cães.  Tudo como num jogo de cartas, dispensando as invariavelmente inúteis.  Azar das pessoas que são filmadas, pois serão fatalmente digitalizadas.  As câmeras são falíveis contra os criminosos comuns, mas não serão contra os que andam na linha.  Estes têm muito a perder, sobretudo com intenções mascaradas na impessoalidade estatal, aplicada sempre segundo as más conveniências...

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