INFERNO DIGITAL
A demanda social por segurança pública é uma demanda justa e necessária. É uma demanda por uniformidade que se encontra plasmada na máxima do bem comum. O Estado tem o dever de prestá-la como mandamentos natural e constitucional, mais particularmente no centro urbano, onde o flagelo da insegurança é mais sentido. Daí que as pessoas reivindiquem o papel do Estado como assegurador dos impostos que paga, por mais que a doutrina tributária assinale com repetitiva dissimulação que o imposto não seja contraprestação paga. Ora, se não é por contraprestação, o imposto é um castigo gratuito? Se o Estado não se presta ao papel de zelador, presta-se ao de um carrasco?
Pior. Ingressa na ordem social, sob a camuflagem da "segurança", demandas por leis gravosas à liberdade individual, como se certas questões pudessem pôr verdadeiramente em risco o tecido social. Com efeito, muitas vezes devemos ignorar certas questões pequenas, na medida em que sua repressão têm o potencial de afligir muito mais seriamente a sociedade do que a atenção que porventura lhe damos. É o que acontece quando o Estado passa a adotar uma postura de vigilante perpétuo e patrulheiro ideológico, invertendo a exceção em regra e vice-versa, não garantindo o direito à palavra, algo tão inerente ao ser humano, única espécie criada por Deus com simultâneas capacidades de fala e discernimento.
Ora, o ser humano é crítico por natureza, e se existem toda sorte de coisas passíveis de crítica, por que cargas d'águas pessoas, nações e povos não podem ser igualmente criticados para um vigilante ocioso vir logo te etiquetar como *preconceituoso*? O ser humano é crítico até quando vai ao mercado comprar um shampoo, por quê não seria então em relação a quem dará aulas a seu filho ou a respeito da origem do sangue que receberá como transfusão?
Ninguém, outrossim, é obrigado a gostar das mesmas coisas que o semelhante, e mesmo desferir um sorriso amarelo ao que não lhe agrada, mas as leis de nosso país reclamam esse tipo de capricho. Ser generoso com uma multidão, sem quaisquer distinções, não é natural nem humano. É algo inerentemente impessoal, e ser impessoal com todos é ser político e não amigo. Aí estará negado o direito à personalidade do crítico, e também o direito do criticado receber críticas, pois é bastante verdade existirem sim críticas construtivas, que futuramente impactarão positivamente na mente do criticado, que se recordará com gratidão daquele amigo que o criticou.
Mas o Estado que está se erguendo sob os nossos narizes quer ser homenageado como um deus infalível, mais que um vigilante perpétuo e onipresente, mas uma entidade macabra semelhante ao Leviatã, que determina o que deve ser livre ou não e tampouco se interessa pela virtude de seus súditos. Sob o pretexto de zelar pela segurança pública, as câmeras deixaram de ser um "mal necessário" e transformaram-se num "mal desnecessário". A multidão não tem face, mas as câmeras captam cada uma das individualidades ali presentes e as cataloga numa espécie de relação supranatural: as mais e as menos semelhantes aos cães, tudo como num jogo de cartas, dispensando as invariavelmente inúteis. Azar das pessoas que são filmadas, pois serão fatalmente digitalizadas. As câmeras são falíveis contra os criminosos comuns, mas não serão contra os que andam na linha. Estes têm muito a perder, sobretudo com intenções mascaradas na impessoalidade estatal, aplicada sempre segundo as más conveniências...

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